segunda-feira, 6 de julho de 2026

A CRIAÇÃO DE UM POVO

O país, sua marca essencial, sua logo - o futebol - anda rateando há mais de duas décadas.Embora não poucos vejam esse fanatismo como a morfina contemporânea. 

Até a 2a metade do século passado - 1958 - o Brasil era um país de vira-latas, na percepção de Nelson Rodrigues. 

Caminhávamos mergulhados em sentimentos subalternos, um profundo complexo de insuficiência, um respeito desmedido, quase serviçal, por tudo o que vinha da Europa, do mundo exterior. 

Quis o destino ter sido um negro, Didi, 29 anos, num jogo contra a Suécia, em mais uma Copa do Mundo, naquele ano, que disse não a esse processo que tanto nos amesquinhava. 

O gesto de Didi, o príncipe Etíope, altivo, indo, calmamente, na direção de Bellini, que lhe entrega a bola recolhida das redes de Gilmar. É um dos momentos mágicos de nossa formação histórica, garantem os boleiros. 

Ao retirar dos fundos da rede de Gilmar, já com o nosso destino traçado pelos deuses em que mais uma vez fracassaríamos, e colocar a bola sob um dos braços, antes do chute inicial, no meio do campo, ninguém ignorava o que iria acontecer. Antes de dar prosseguimento à partida, olhou, rapidamente, para seus companheiros, e determinou: - Vamos dar uma lição nesses gringos. 

Naquele distante julho de 1958, poucos perceberam, nascia ali um novo país, uma nova gente. Terminamos ganhando por 5X2 do país que hospedava a Copa, e nunca mais, nunca mais de verdade, seríamos os mesmos. 

Houve Machado, mas houve também Didi, antes Aleijadinho, todos já passaram, mas hoje há o Lucas, da portaria do meu prédio. Somados, constroem este país, retiram o Brasil da rua dos vira-latas. 

Nossa identidade deve muito aos excluídos. Ah, Nelson, que perda foi você ter se despedido tão cedo. 

(Edilson Martins)


Sem comentários:

Enviar um comentário