Até a 2a metade do século passado - 1958 - o Brasil era um país de vira-latas, na percepção de Nelson Rodrigues.
Caminhávamos mergulhados em sentimentos subalternos, um profundo complexo de insuficiência, um respeito desmedido, quase serviçal, por tudo o que vinha da Europa, do mundo exterior.
Quis o destino ter sido um negro, Didi, 29 anos, num jogo contra a Suécia, em mais uma Copa do Mundo, naquele ano, que disse não a esse processo que tanto nos amesquinhava.
O gesto de Didi, o príncipe Etíope, altivo, indo, calmamente, na direção de Bellini, que lhe entrega a bola recolhida das redes de Gilmar.
É um dos momentos mágicos de nossa formação histórica, garantem os boleiros.
Ao retirar dos fundos da rede de Gilmar, já com o nosso destino traçado pelos deuses em que mais uma vez fracassaríamos, e colocar a bola sob um dos braços, antes do chute inicial, no meio do campo, ninguém ignorava o que iria acontecer.
Antes de dar prosseguimento à partida, olhou, rapidamente, para seus companheiros, e determinou:
- Vamos dar uma lição nesses gringos.
Naquele distante julho de 1958, poucos perceberam, nascia ali um novo país, uma nova gente.
Terminamos ganhando por 5X2 do país que hospedava a Copa, e nunca mais, nunca mais de verdade, seríamos os mesmos.
Houve Machado, mas houve também Didi, antes Aleijadinho, todos já passaram, mas hoje há o Lucas, da portaria do meu prédio.
Somados, constroem este país, retiram o Brasil da rua dos vira-latas.
Nossa identidade deve muito aos excluídos.
Ah, Nelson, que perda foi você ter se despedido tão cedo.
(Edilson Martins)

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