segunda-feira, 6 de julho de 2026

A CRIAÇÃO DE UM POVO

O país, sua marca essencial, sua logo - o futebol - anda rateando há mais de duas décadas.Embora não poucos vejam esse fanatismo como a morfina contemporânea. 

Até a 2a metade do século passado - 1958 - o Brasil era um país de vira-latas, na percepção de Nelson Rodrigues. 

Caminhávamos mergulhados em sentimentos subalternos, um profundo complexo de insuficiência, um respeito desmedido, quase serviçal, por tudo o que vinha da Europa, do mundo exterior. 

Quis o destino ter sido um negro, Didi, 29 anos, num jogo contra a Suécia, em mais uma Copa do Mundo, naquele ano, que disse não a esse processo que tanto nos amesquinhava. 

O gesto de Didi, o príncipe Etíope, altivo, indo, calmamente, na direção de Bellini, que lhe entrega a bola recolhida das redes de Gilmar. É um dos momentos mágicos de nossa formação histórica, garantem os boleiros. 

Ao retirar dos fundos da rede de Gilmar, já com o nosso destino traçado pelos deuses em que mais uma vez fracassaríamos, e colocar a bola sob um dos braços, antes do chute inicial, no meio do campo, ninguém ignorava o que iria acontecer. Antes de dar prosseguimento à partida, olhou, rapidamente, para seus companheiros, e determinou: - Vamos dar uma lição nesses gringos. 

Naquele distante julho de 1958, poucos perceberam, nascia ali um novo país, uma nova gente. Terminamos ganhando por 5X2 do país que hospedava a Copa, e nunca mais, nunca mais de verdade, seríamos os mesmos. 

Houve Machado, mas houve também Didi, antes Aleijadinho, todos já passaram, mas hoje há o Lucas, da portaria do meu prédio. Somados, constroem este país, retiram o Brasil da rua dos vira-latas. 

Nossa identidade deve muito aos excluídos. Ah, Nelson, que perda foi você ter se despedido tão cedo. 

(Edilson Martins)


sábado, 4 de julho de 2026

RETORNO À VIDA SELVAGEM

Uma Copa não é um espaço onde se premia o melhor, o mais inteligente, o favorito.

Há o imponderável.

Tal qual a existência humana.

Chorar nos separa de outras espécies, até nos engrandece, mas não tranquiliza ninguém diante de uma disputa de pênaltis, onde o que está em jogo são as glórias do sentimento nacional.

Assistir a uma equipe sufocada por emoções, algumas em desespero, inclusive o goleiro, sobre quem recai o ônus fatal, é alguma coisa que leva a um estado de quase pânico.

Esses atletas se tornam milionários, não raro de origem excluída, ganham fortunas, são celebridades, mas em suas vidas pessoais são incapazes de comprar um pirulito da esquina.

Carentes, e não menos de experiência de mundo, cedo deixam suas casas, vida familiar praticamente nula, e têm assessor até para escolher fio dental.

Há ainda as belas mulheres, jamais sonhadas, que se derramam à sua passagem.

Ah, mundo, ah, destino, ah os desígnios de Deus, assim imaginam, evangélicos ou não, o que não é o caso dos europeus.

Como não se desmanchar diante de uma decisão de tamanho peso?

Existe algo mais imprevisível, imponderável que um pênalti?

No fim, se ganha por uma generosa bola na trave ou se perde por um chute onde é isolada.

Na fria matemática do jogo, pouco importa que se ganhe por 7 a 1, ou por uma bola no travessão.

Uma alma de direita, fascista, estreita, pode argumentar; o que esperar de uma atividade onde não se pode recorrer às mãos?

O que nos separou dos outros primatas, lá atrás, foram o nosso polegar e o indicador. 

No futebol, essa fantástica evolução foi desprezada, não conta.

O futebol, portanto, nos devolve a um passado que se perde no começo dos começos, na escura noite dos tempos, nos retorna à vida selvagem.

Nele, visíveis são o esotéricos, as mandingas, as crenças ancestrais.

O que dizer? 

São ídolos com os pés de barro, são farsas?

Não.

São demasiadamente humanos.

E, na aventura da existência, a vida não perdoa que se queimem etapas, em nenhuma espécie. 

Diante de tanta dor e angústias, os que se despedem, vivem instantes de perda absoluta, a estupidez da tragédia. 

Os que ficam, a expectativa da glória, a imortalidade histórica, dizem os açodados fanáticos comentaristas, tolos e primários não poucos.

Merecem uma série da Netflix.

Com a mesma voracidade com que celebram a genialidade de atletas e técnicos antes do jogo, feito o apito afinal, havendo derrota, viram pernas de pau.

Portanto, nos ajudem os filósofos, os estudiosos da indecifrável alma humana.

(Edilson Martins)

 

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Mascote

 

A mascote gerada pela IA é mais apropriada. A oficial tem mais a ver com o futebol europeu ou com o governo passado.



terça-feira, 8 de julho de 2025

DE CRÁPULA A HERÓI (EDILSON MARTINS)


Chorar nos separa de outras espécies, até nos eleva, mas não tranquiliza ninguém numa Copa, onde o que está em jogo são as glórias da pátria. No caso agora, dos clubes. Os que perdem, vão deixando suas lágrimas na grama quente dos campos. Assistir a uma equipe afogando-se em emoções, inclusive o técnico, sobre quem recai o maior desafio, é sempre alguma coisa que quase leva ao desespero. Uma Copa, ou um jogo, não é um espaço onde se premia o melhor, o mérito, a razão, a técnica, o mais ético, tão pouco o favorito. Igualzinho a vida. Há a ausência de lógica, o imponderável. Estado emocional da equipe, um ou mais jogadores alterados, desequilibrantes, erros de arbitragens, torcida, e lances inimagináveis, tudo isso conta, quando não decide o resultado. No capítulo das emoções, os exemplos são robustos. Esses atletas, não raro de origem excluída, ganham fortunas, são celebridades, mas na esfera pessoal a maioria é incapaz de comprar um pirulito na esquina. Não, não estamos falando de Neymar. Carentes, e não menos de experiência de vida, cedo deixam suas casas, universo familiar praticamente nulo, adentram num ninho de cobras, e têm assessor até para escolher a escova de dentes. Na fria matemática do jogo, pouco importa que se ganhe por 3 a zero, ou por uma bola no travessão. Uma alma do contra, e não são poucas, pode argumentar; o que esperar de uma atividade onde não se pode recorrer às mãos? O que nos separou dos outros primatas, lá atrás, foram o nosso polegar e o indicador. No futebol, essa fantástica evolução não vale. O futebol só permite os pés, portanto nos devolve a um passado que se perde no começo dos começos, na escura noite dos tempos. Nos devolve ao imponderável. Hércules, o ex-menino pobre do Piauí, tudo indica que será sequestrado pelas ligas milionárias, que ele sequer imagina o que sejam, vamos supor. Já Renato Portaluppi, o técnico, o bolsonarista, que vive os melhores tempos de sua egolatria, pode emergir de herói a vilão. Ou de crápula a herói. Futebol é a reprodução fiel da imponderabilidade da vida. Um espírito mais metido pode até dizer que o futebol - assim como outros esportes, movido loucamente por paixões - só xiste para evitar os conflitos internos, ou mesmo as guerras Civis. Já que a política busca evitar as guerras globais. https://linktr.ee/edilsonmartins

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Nunca foi “fumaça de gol*”...

Em meio à geração com mais acesso ao "vídeo game" a gente viu desaparecerem, aos poucos, os atletas que atuavam nos campinhos, os próprios campinhos, que passaram a virar terrenos baldios, onde se jogavam todo tipo de lixo e muitos, também, foram invadidos para a construção de moradias, de forma a diminuírem bastante as competições entre equipes amadoras pelos motivos já mencionados e por causa da violência urbana que foi aumentando, pela criação dos espaços fechados, os quais cobram mensalidades e, talvez, pela desilusão com a possibilidade de se tornar profissional, mas as histórias permanecem e quero relembrar aqui o "Fumaça", pior jogador de futebol que eu já vi atuar nas peladas e torneios valendo premiações!

O atleta era o último a ser escolhido e às vezes nem escolhido era, mas permitiam que ele fosse o um a mais num dos times a fim de não ficar de fora, pois era muito querido!
Suas falhas nas tentativas de jogadas eram absurdas, ele não tinha a menor intimidade com a bola e rendia muitas gargalhadas na torcida que se avolumava quando o viam em campo e ele, por sua vez, parecia não encarar como zombaria e ria de si mesmo juntamente com a galera!
Nos momentos em que geral, jogadores e torcedores, se reunia para a feijoada ou churrascão no final dos torneios, ele entrava nas rodas de resenha, contava orgulhoso suas jogadas que só ele tinha visto ou sua mente tinha imaginado e até que era bom pagodeiro, o Fumaça!
Por algum desses fatores que a gente nunca sabe qual foi o culminante, o Fumaça, do qual nunca cheguei a conhecer algum parente, foi visto em situação de rua e, mais recentemente, alguém teve a infeliz ideia de, durante a noite, tocar fogo em montes de papelão que ficavam entulhados num galpão em ruínas e, infelizmente, o nosso personagem teve sua história encerrada em meio às chamas.
Alguém teria dito, em meio à uma resenha sem graça, que o Fumaça havia decidido aspirar fumaça de Crack, já que não se tornara o craque que sonhara ser e acabou se finando em meio à fumaça do criminoso incêndio...
*Como se referia o saudoso narrador Waldir Amaral, quando surgia oportunidade de gol para algum time em meio à partida.

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

Crônica poema de Edu Planchêz

 

arrancava a cabeça do dedão

e sangrando continuava a infinita louca pelada,

o racha alucinante…

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Quiséra ser eu um Nelson Rodrigues

para conseguir estancar no tempo,

em algum lugar do tempo,

algo como uma profecia,

um chamado, um grito azul,

um grito avermelhado,

um grito sem cor

e com todas as cores de um gol,

de um quase gol, de um gol que tive

vontade de fazer e nunca fiz.

Acho ou compreendo na minha inocencia,

que todo garoto ou garota...

adoraria ser um craque de futebol,

jogando na lama, num campinho rala coco

livre de qualquer espécie de grama,

sozinho ou com um monte de “neguinho”

bicando suas pernas,

grudando em seus ombros,

para comemorar o gol

ou para evitar que as redes imaginárias fossem vazadas,

pois os campinhos de futebol que conheci

pelas ruas e terrenos baldios

do intenso suburbio

tinham traves que eram feitas de qualquer coisa:

um par de chinelos, pedras, latas,

paus amarrados com arames, barbante,

cordinhas de sisal e até mesmo de cipó, ou...

Na tarde aloprada do domingo suburbano,

o sol castiga o campo de terra batida

pisada pelos bichos das relvas...

As traves de bambu verde rachado,

amarradas com sei lá com o que,

e a bola de capotão, de plástico, de meia já gasta,

mostrava as cicatrizes de tantas acirradas disputas.

Eu o Mané da Pelota,

como eu era chamado,

ajeitava a chuteira velha rasgada

enquanto observava os parças do time-catado

bebericando umas brejas entre papos,

gozações e piadas...

Cada ruga em meu rosto contava

uma resenha vivida, cada cicatriz uma partida.

Ali, na várzea eu e os outros com camisas e sem camisas

não éramos apenas mais uns jogadores;

eramos heróis sem nomes,

guardiões dos sonhos de muitos que como nós,

acreditavam no feitiço do futebol,

na malicia do gingar,

de bater na gorduchinha com o peito pé…

No Terrão correu Bruno Henrique e Michael,

Perácio, Quarentinha,

Zizinho, Ademir da Guia, Rodrigues Neto, Nelinho, Zico,

Samarone e Rivelino,

correu e corre eu e você...

“Olho no lance! Pelo Amor dos meus Fihinhos!

Pelas barbas do profeta!"

( Berrava Silvio Luiz )

Radinho de pilha ligado (“Mário Viana!” “Gol Legal!”),

a rua de paralelepípedos era o estádio,

a gente encarava a pelada descalço,

chutava a bola, chutava o vento, chutava o chão,

arrancava a cabeça do dedão

e sangrando continuava a infinita louca pelada,

o racha alucinante…

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ANTONIO EDUARDO PLANCHÊZ DE CARVALHO


segunda-feira, 30 de outubro de 2023

FOOTBALL OU FUTEBOL? TANTO FAZ...

(Por Luiz Carlos de Farias Franca) 

Há muito tempo que eu deixei de gostar de football, eu gostava do tempo do "futebol arte", daquele espetáculo coletivo, daquele toque de bola espetacular que existia no futebol brasileiro; lembro do show que o Caréca dava em campo e de tantos outros jogadores mais. Depois que o Brasil adotou o modelo europeu de jogar, assim...sem jogo de cintura, com lançamentos longos e bolas altas, pouca marcação e medo de driblar...essa coisa de salários exorbitantes e muitos mercenários no comando da categoria ,em todo o país e no planeta...eu falei a mim mesmo: não tem nada a ver perder tempo dando atenção pra uma atividade que dá mais sono que animação. Mas assisti a alguns jogos,assim...meio pela metade, da Copa Sul Americana de footbaal...e comecei a gostar muito do futebol que o time Cearense, o Fortaleza ,apresentou, e hoje assisti à final dessa Copa, Fortaleza X LDU, um time muito bom, do Equador, apenas muito bom, porque o Fortaleza foi ótimo, e deu um show, um show no toque de bola, jogadores fortes e rápidos...em nenhum momento senti sono e tédio, foi um jogaço; apesar do LDU bater muito, e não deixar o Fortaleza mostrar ainda mais o seu ótimo futebol, foi um dos melhores jogos que assisti, senão o melhor, dentro desses quinze anos, ou mais, de tédio no fotebol brasileiro. Enfim, teve prorrogação e no final,os pênaltis...o goleiro do Fortaleza pega o primeiro, e o time estava com cara de campeão...mas mesmo defendendo dois, o Fortaleza perde a Copa Sul Americana de Footbaal para o LDU, não fiquei triste...os caras perderam com cara de campeões, e foram aplaudidos pela sua forte torcida. Eu não tenho,e nunca tive nenhuma informação sobre esse time; se a torcida dele é burguêsa ou é popular...se são mais de direita ou de esquerda, sinceramente, não sei mesmo, nem da origem , da sua história...eu apenas comecei a segui-lo, pela a excelente qualidade que percebi...talvez eu tenha percebido neles,uma mistura de anos sessenta, setenta e oitenta...a boa época do nosso futebol. Não fiquei triste pela sua derrota, porque foi um belo jogo...e era evidente, desde o inicio, a superioridade técnica do time Cearense. Nunca pensei que um dia, eu iria abrir espaço, aqui na minha página, que é exclusiva para assuntos de Arte, Cultura e Meio Ambiente, para comentar a final de um jogo de futebol entre dois times sul americanos...um time Nordestino brasileiro X um time Equatoriano. Será se foi o eclipse lunar, que me influenciou? Acho que não, o Fortaleza é bom mesmo!






segunda-feira, 26 de junho de 2023

O QUARTO ESTÁDIO

Em um futuro não muito distante está havendo uma reunião extraordinária da Assembleia das Corporações. O assunto é o mesmo que há tempos vem sendo discutido envolvendo a Grande Arena, o quarto estádio. Para você que está chegando agora, vou contar do que se trata:

Os jogos de futebol passaram a acontecer em três estádios. No estádio principal ocorre o jogo; cada um dos outros dois, chamados popularmente de halfies (Half de mando e Half visitante) é ocupado com as torcidas que assistem por hologramas ao jogo e à torcida adversária criando virtualmente o ambiente inerente ao desporto.  

E o quarto estádio? 

É o local apropriado para o encontro dos torcedores. Foi criado depois que todo e qualquer distúrbio ou barulho passou a ser severamente punido fazendo com que a um simples grito de gol em local público seja aplicada uma coima volumosa. Trata-se do maior dos quatro estádios e é gerido por meios próprios. Tem por baixo das enormes arquibancadas toda uma estrutura para que não se precise lançar mão do erário corporativo para nenhum gasto. Tem pronto socorro; hospital com UTI e enfermaria, fisioterapia, acompanhamento psicológico; seguradora; farmácia e serviços funerários.  Ganhou o nome de Grande Arena, bem mais apropriado tendo em vista que o seu piso é revestido com areia para que se torne mais fácil a limpeza ao final de cada encontro.

E o que quer a Assembleia?

Reuniu-se para votar a autorização para as teletransmissões dos encontros da Grande Arena.



segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

O DONO DA BOLA

Fui dono de uma bola de couro oficial. Alguém que desconhecia os meus talentos resolveu me dar esse presente de aniversário, quando eu era menino. O dono da bola é um cara de prestígio, joga todas as partidas e até escolhe o time. Fui exceção entre os moleques de rua, todos preferiam não brincar com a minha bola a permitir que eu jogasse com eles. Bullying? Nada disso, o motivo verdadeiro era eu ser muito ruim, não chutava, não driblava, fazia gol contra e cometia faltas nos companheiros de time. 

Quando tinha sete anos levei uma bolada no olho direito, sofri lesão na córnea, que me acompanha até hoje. Minha mãe fez promessa com Santa Luzia para eu não perder a vista. Nunca paguei a promessa e acho que por isso tenho a visão complicada.

Terá sido culpa da mártir, a que arrancou os próprios olhos e foi decapitada por conta de sua fé em Cristo? Não, de jeito nenhum, o negligente fui eu mesmo. Mamãe prometeu comprar a imagem da santa milagrosa e preferi roubá-la no santuário de uma tia avó, também sofredora da vista. Depois do roubo, as más línguas falaram que a pobre velhinha ficou cega. Lá no alto do céu não consideraram a promessa quitada. Ainda sofro dos olhos e, na família, todos me julgam um ladrão de antiguidades.

Não sei se por conta da bolada ou do sacrilégio religioso, tornei-me um fracasso em assunto de futebol. Faltou-me vocação para a maior cultura do povo brasileiro. Naquele tempo ainda não se falava nerd, mas sempre fui um sujeitinho aferrado aos livros, à música, ao cinema, ao teatro, e gastava as horas estudando. Nunca me revelei nas brincadeiras de pião, bola de gude, pingue-pongue, barra bandeira, não aprendi a empinar pipa, nadava mal e não sabia montar os pangarés da fazenda dos tios e da avó. Para desgosto do pai tornei-me uma vergonha em qualquer modalidade de esporte.

O time de futebol da minha cidade se chamava Magarefe, os jogadores eram açougueiros e batiam bola aos domingos, num campo próximo à rua onde eu morava. No final da tarde, já escurecendo, eles retornavam das pelejas calçando chuteiras, sem as camisas dos ternos, suando e fedendo mal como as carnes podres que vendiam no açougue. Desfilavam pela calçada, feios e barulhentos, proferindo insultos e palavrões. O mal cheiro impregnou-se em minha memória e nunca consegui dissociá-lo do futebol.

Se busco compreender os meus entraves futebolísticos à luz da psicanálise, concluo que os devo aos sentidos da visão e do olfato. Eles foram agredidos pelos jogadores feios, sujos, barulhentos, grosseiros e malcheirosos. Trata-se de motivo bem mais relevante do que a cartilha de esquerda dos anos de ditadura militar, quando éramos instruídos a não torcer pela seleção brasileira, num evidente patrulhamento.

Vocês não imaginam o que sofri na Copa de 1970, morrendo de vontade de assistir aos jogos na tevê em preto e branco da vizinha, mas instruído a não cair na tentação fascista, pois o Mundial se tornara um instrumento de propaganda dos militares.

O futebol também se misturou com as coisas do céu, as rezas, as velas acesas e uma imagem em porcelana de Nossa Senhora Aparecida, que ganhei de uma tia na primeira comunhão. A padroeira do Brasil ocupava o seu lugar de honra em cima de um rádio Philips comprado pelo pai, quando ainda morávamos no sertão. Na euforia de um gol, a santa caiu do seu posto e espatifou-se em mil cacos. Pobrezinha.

Chegado aos 70 anos, resolvi os meus conflitos com o futebol, a bola e os Mundiais. As pessoas me cobravam ser um torcedor, morrer por um time, vestir verde e amarelo durante a Copa e assistir aos jogos enturmado, bebendo cerveja e roendo as unhas dos pés. Não torço por nenhuma seleção e não sofro ansiedade pelos resultados. Gosto de ouvir os fogos, os gritos, e me comovo com a euforia das pessoas. Participei com alguns argentinos de uma mesa sobre futebol, na Alemanha. Não abri a boca, só fiz rir.

Não cobro de ninguém que se comova assistindo ao filme turco Quatro gerações, um longa-metragem de duas horas e meia, que parece durar quinze minutos, tão emocionante ele é. Não alicio os amigos para o culto a Tarkovsky, um cineasta russo. Não tento os inimigos dos livros a lerem as dezenas de escritores que leio e releio num verdadeiro ato de fé. Alguém acredita que se possa perder o sono depois de ler o ensaio de Edmund Wilson sobre o simbolismo? Eu perdi.

Estamos quites torcedores brasileiros. Não cobro nada de vocês. Mas também não reclamem por eu ter dormido durante o tedioso jogo entre o Brasil e a Suíça, em que nem o Pombo Richarlison conseguiu me empolgar com seus arrulhos. 

*



Texto de Ronaldo Correia de Brito

Ilustração de Rafael Olinto

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

A MULHER QUE ODIAVA O ZICO

 


Esta é uma história de amor. Ela, a mulher, muito amava o marido. Porém, o amor... Ah, o amor... Ele, o marido, assim como “João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava...” amava o Flamengo, que quando ganhava, atirava-o para os braços eufóricos de sua quadrilha por toda a noite, mas, quando perdia, mandava-o direitinho para os braços consoladores da mulher.

 

Para Ronaldo Rhusso, Maiara, Marino, quase todos os primos e incontáveis  amigos que fazem com que eu, um vascaíno (assim como Drummond), tenha imensa simpatia pelo Flamengo Povão, não por esse que aí está de conluio com o fascismo vigente.

 

Foto retirada da Internet.


sábado, 19 de junho de 2021

A ditadura do futebol

A minha paixão pelo futebol não é recente, não é de moda, não é fruto do acaso. Vem de sempre, do mais longe da infância, manteve-se sempre constante e alimentou-se sempre de um genuíno prazer pela estética e pela geometria do jogo: até mesmo ver miúdos a jogar na areia de uma praia me cativa, não apenas ver jogar Messi ou Ronaldo. Mas, hoje em dia, dou por mim a ficar cada vez mais farto de futebol. O jogo, em si mesmo, é cada vez mais desinteressante, a partir do momento em que o seu objectivo principal — marcar golos — foi substituído pelo de não deixar o adversário marcar golos. O futebol-arte foi substituído pelo futebol-indústria, no qual desaguaram em força todas as máfias de dinheiro obscuro do mundo — da Rússia, do Médio Oriente, da Ásia — que forçaram o espectáculo futebolístico até aos limites: mais jogos, mais competições, mais horas de transmissões televisivas de jogos e debates sobre jogos, e jogadores pagos pornograficamente, com a contrapartida de jogarem até à exaustão. Todos os envolvidos no negócio — donos e administradores dos clubes, técnicos, jogadores, programadores de televisão, dirigentes das Federações, da UEFA e da FIFA — sabem que a corda está esticada até ao limite, mas apostam na infinitude de um filão que não se esgotará nunca, pois acreditam que não se esgotará nunca, passando de geração em geração a paixão do público por este jogo. E, por isso, não é possível abrandar nem conter a ambição — daí a recente tentativa, por enquanto frustrada, de 12 dos mais ricos clubes europeus quererem ainda enxertar uma outra competição, só para eles, às já existentes. E, quando se paga seis, dez, vinte milhões por ano a um jogador, e mais do que isso a um treinador, perder não é opção. Daí que todos os treinadores, sem excepção, cuidem hoje, primeiro que tudo, de preparar as suas equipas para não perder. Os das mais ricas preparam-nas também e depois, para tentar ganhar; os outros, apenas para defender. O resultado à vista é que todas as equipas acabam a jogar da mesma maneira, um futebol previsível, cauteloso, aborrecido, destinado a matar à nascença o improviso e o génio. Bom exemplo disso é a saída de bola dos guarda-redes, actualmente a jogada mais ensaiada pelos treinadores, a mais repetitiva e a mais desinteressante. Aliás, tenho para mim e desde há muito, que, com honrosas excepções — como um padre-treinador que tive aos 15 anos — os treinadores só servem para complicar o que é simples. E quando vieram acrescentar-lhes o VAR (hoje, o personagem principal e invisível do jogo) e toda uma teia de intrincadas interpretações técnico-jurídicas sobre as 13 leis do futebol — ainda por cima, mudando todos os anos — este jogo, outrora fascinante, vai-se tornando cada vez mais aborrecido.

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 18/06/2021)


 

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Vermelho Futebol Vermelho

 


Para saber mais sobre esse dia de bola bonita, clique aqui.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Assim, evoluimos.


 «Tudo começou com a criação de um clube de remo formado só por negros operários e, pior naquela época, presidido por uma diretoria inteira só de mulheres (à exceção do cargo de Orador que, como se fosse ironia, elas, sempre tachadas de faladeiras, entregaram a um representante masculino). A ousadia, que em 1919 uniu na cidade catarinense de Itajaí, um grupo de pessoas excluídas da vida social e esportiva branca e burguesa de Santa Catarina, chamou-se Clube Náutico Cruz e Sousa e fez parte da onda revoltosa que tomaria conta do esporte brasileiro, que culminou com a derrubada do elitismo no futebol.»

Leia mais clicando aqui.



quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Flu Fla

Para além de importantes ensinamentos, esta pandemia também nos mostrou que não é preciso cobrança de ingressos para se manter os campeonatos de futebol e que um Fla-Flu sem público não tem graça nenhuma.



domingo, 20 de dezembro de 2020

A virada da minha vida

Eu devia ter doze ou treze anos. Havia passado o fim de semana com os avós, na roça. Retornei à cidade de trem, no domingo, sem saber do resultado do Vasco x Flamengo. Pedi para assistir a reprise na casa de um vizinho. Sozinho na madrugada, assistia o Vasco começar perdendo por 3 x 0. Mesmo cansado da viagem, não deixei o sono ser maior que a torcida, vã, nessa altura. E eis que o vasco começo a fazer um gol atrás do outro, até que Oldair, zagueiro (esse lembro bem), fez o 4 x 3 batendo uma falta. Um canhão rasteiro. Como dormir depois?



sábado, 24 de outubro de 2020

Vício da Gema

Nunca fumei

mas trago o Vasco

baseado na paixão dos alucinados

e se agarro a esse vício inexplicável

e subo o morro pra buscar fatal cigarro

é ali que morro na cruz de malta crucificado.

Não sou de beber

mas me embriago

das antigas vitórias por mares nunca idos,

onde o Vasco escreveu múltiplos capítulos

e na adega do almirante entornei mil títulos.

Nunca cheirei mas admito

que enfileirei carreiras com seus craques

desde Barbosa Eli Danilo Jorge Ademir Bellini

e vai minha memória explodindo, farejando

Dinamite Romário Jorginho Pernambucano.

Não frequento a ATA,

associação dos torcedores anônimos,

pois dou meu nome e minha cara a tapa

prossigo nesse vício, nessa quimera,

e se caio uma duas três ou sete quedas

mesmo que haja o encachoeirado pranto

sei que após o tombo me levanto,

a obsessão da caravela vascaína

sempre me ergue, me orienta e me alucina.

 

Caio Junqueira Maciel

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Triste torcedor

Com o Vasco sendo patrocinado pelo "véi da havan", eu passarei a torcer contra.
Torcerei sempre contra qualquer equipe patrocinada por empresas que tenham apoiado a campanha do atual governo.
Até mesmo a Chapecoense (clube de tão grande simpatia) torci contra. Sei que o dinheiro move o futebol, mas tudo tem um limite.
Continuarei torcedor do Vasco da Gama, mas, agora, contra. Contra. Contra. Contra.

sábado, 21 de julho de 2018

POR QUE NÃO TORCI PARA O BRASIL

(testaum)

Bom, preciso dizer algumas palavras a meus amigos e seguidores - a todos os três. Não, eu propriamente não 'torci contra' a seleção brasileira. Apenas fiquei indiferente. Simplesmente não consegui torcer. Não foi a primeira vez. 

Em primeiro lugar, nem todo mundo que 'não' torceu pela seleção o fez (ou 'não' fez) por motivos políticos, por causa do golpe, do estado lastimável em que o país foi jogado, etc. Meus motivos foram ligados ao futebol mesmo. 

'Não' torci - admito, em alguns momentos torci contra, mas só em alguns momentos - por (principalmente) três razões: 

1. Por causa da mafiosidade da CBF (e de sua pátria-mãe, a FIFA). 
2. Por causa do coachismo do técnico e da comissão técnica. 
3. Por causa do estrelismo espetacularizado de alguns dos principais jogadores. 

O ponto 1 não precisa explicar muito. A FIFA tem um poder centralizador incomparável em todo o planeta, que rivaliza apenas com o do Vaticano. E usa esse poder para - comprovamos recentemente o que já sabíamos há muito tempo - traficar influências juntos aos Estados nacionais e, claro, enriquecer a si mesma como corporação e à sua elite de dirigentes. Não há um clube de 4a. divisão do país africano mais pobre que não deposite uns cobres no cofrinho da FIFA (via sua Federação local) a cada jogo jogado. A CBF (a antiga CBD que, semelhante ao PMDB mudou de sigla pra tentar melhorar a imagem) sempre esteve nos altos círculos da FIFA, e sua corrupção nacional colocou na cadeia seus dirigentes mais recentes. Estamos ainda longe de saber toda a podridão que se oculta na instituição, envolvendo até mesmo a ilibada Rede Globo de Televisão, olha que coisa! Essa instituição fraudulenta NUNCA se preocupou com o esporte ou com as pessoas e famílias que vivem dele. É business, business, business, dólar, euro, (padrão) ouro. Atualmente, não consigo torcer por coisa alguma que essa 'instituição' organize ou represente. 

Ponto 2: Estou com Paulo Cesar Caju. O estilão gaúcho dos técnicos atuais está matando o futebol brasileiro. Tite me incomoda ainda por outro motivo: seu coachismo midiático (entonações retóricas bem medidas, chegou a ganhar mais dinheiro com comerciais de TV no pré-Copa do que o próprio Neymar) impõe ao futebol um lugar e um papel que o técnico de futebol definitivamente NÃO tem. Muricy Ramalho faz coro com o técnico belga ao dizer que 'na prancheta ganho todos os jogos', e que a responsabilidade do técnico se resume a meros 30% do resultado de um jogo. Em campo, são os jogadores que jogam. E às vezes são eles mesmos que se escalam. 

O Brasil ganhou 5 copas, todas elas com técnicos meia-boca. Em 58, o sonolento Feola; em 62, Aymoré Moreira o substituiu em cima da hora, quase pró-forma, mantendo-se a comissão técnica quase toda; em 70, um inexperiente Zagalo sucedia (esse sim!) o técnico que de fato armou a seleção, João Saldanha; em 94, Romário e Taffarel venceram a Copa apesar de Parreira (o tal de 'o gol é um mero detalhe'); em 2002, veio Felipão e sua 'família'. Devemos falar ainda de 82, quando perdemos a copa por um (REAL) acidente de percurso contra a Itália. O técnico era um sujeito que compunha e dialogava com os jogadores, não se sobrepunha a eles - talvez o melhor técnico que esse país já teve: Telê Santana. Não se vê nada parecido hoje em dia. 

O que todos esses times tinham em comum (menos 94 - que só venceu aos trancos e barrancos, porque por um lado tinha um goleiro e um centroavante e por outro o nível da Copa estava abaixo da média)? Esses times tinham líderes (técnicos!) dentro do campo! Em 58 e 62, Didi, Zito, Nilton Santos. Quem viu Didi pegar a bola no fundo das redes no primeiro gol da Suécia na final em 58, levá-la embaixo do braço até o meio campo enquanto esbravejava serenamente (?) com seus companheiros, sabem do que estou falando. (Vi em video, em 58 eu estava nascendo). Em 70, Zagalo sequer escalava o time. Pelé, Gérson e Carlos Alberto eram os técnicos. Em 82, Telê dialogava com nada menos que Júnior, Falcão, Sócrates e Zico. Em 2002, Felipão tinha dentro de campo Roberto Carlos, Ronaldinho e Rivaldo, e no banco Ricardinho, Júnior e Juninho Pernambucano. Mas e nesse time de 2016??? A estrela absoluta é o Tite e seus esquemas, e seus conceitos de 'força mental', 'consistência', 'finalizações'... Não há ninguém dentro de campo com controle emocional e visão de jogo para comandar os companheiros. O rodízio de capitães é uma piada de mau gosto. 

(Parênteses: seleções com grandes atacantes foram embora: Messi, CR7, Neymar. Seleções com meio-campos criativos tão na briga: Modric, De Bruyne e Hazard, Griezmann. Vamos, me digam: onde estão nossos meio-campos? Felipe Coutinho é candidato mas ainda não - mesmo assim foi decisivo nas três partidas da fase classificatória; Renato Augusto ficou no banco, até quase decidir contra a Bélgica). 

Não importa vencer todos os jogos amistosos e torneios preparatórios e não se preparar para o mata-mata (que é de fato do que é feito uma copa do mundo). Em uma de suas entrevistas (sempre bem planejadas, oratória afiada), Tite chegou a dizer (como se fosse algo!) que o Brasil tinha sido a equipe que mais finalizou, ficando atrás apenas da Alemanha! Dois dias depois, a Alemanha que mais finalizou foi eliminada na fase de grupos. E o Brasil caiu nas quartas. Isso deve dizer alguma coisa. Pra mim, diz o óbvio. As estatísticas (finalizações, posse de bola, quantos quilômetros se correu, etc) podem fazer muito sentido para esportes como o baseball, o basquete e o futebol americano (onde surgiram e de onde se espraiaram para o mundo), mas não fazem o menor sentido num esporte em que você pode ter 30% de posse de bola e dar dois chutes ao gol adversário e mesmo assim vencer a partida (lembram do Chelsea contra o Barcelona?). 

Nenhum técnico sério se debruçaria sobre isso. Prefiro alguém que entenda de nosso futebol e NÃO ATRAPALHE, do que alguém a quem todos devem render homenagens de maestro e professor. Não, não creio que Tite tenha feito um bom trabalho. Escalou mal o Corinthians, quer dizer, a seleção, quer dizer, vocês entenderam), sentou sobre um rol de resultados em que nada estava em jogo (nos jogos preparatórios e amistosos mais vale arriscar, testar e perder do que acumular bons resultados em que não se aprende nada - teve o mérito de salvar as eliminatórias), insistiu em aferramentos táticos que não deram certo (o que foi o 'falso 9' Gabriel Jesus??? Mas a mídia se ocupou de justificá-lo todo o tempo), e principalmente (chego no último ponto) não fez nenhum esforço para deslocar o eixo da equipe do mimado Neymar para o coletivo. Ao contrário, ele o defendeu em todas as suas pirracinhas dentro e fora de campo. Deus no que deus. 

[Mas, sacanagem, o Canarinho Pistola foi a melhor coisa, o mascote mais maneiro de todos os tempos! Não merecia tal sorte. Não merecia o Neymarketing!] 

3. O terceiro ponto diz respeito aos jogadores. Em sua maioria, são de uma geração cujo sonho de menino era jogar no Barcelona, no Manchester, na Juventus. Isto é, sair do país, ser famoso mundialmente e ganhar muito, muito dinheiro. Jovens, se foram pro futebol europeu. Nunca se ganhou tanto dinheiro, um dinheiro OBSCENO, pra jogar futebol. Esses jovens são totalmente desconectados do povo que, diante do 'legado' da Copa no Brasil, ainda foi alijado dos estádios pelo padrão-Fifa dos preços absurdos. Torço (torcia, nem isso me apraz mais) pelo Flamengo. Quando menino, me acostumei a ver e a conviver com pretos e pobres nas arquibancadas e nas gerais do Maracanã. Hoje não os vejo mais. Os 'torcedores' do Brasil em Moscou gritam 'boceta rosa' desrespeitando uma menina russa: são profissionais liberais, da mais merda de nossa classe média, alguns em cargos políticos. Fora esses desviantes, a maioria dos torcedores são brancos e com dinheiro suficiente pra passar 20 dias na Rússia pagando ingressos caríssimos e sem trabalhar. 

Neymar é um embuste. A cada vez que ouço alguém falar do que ele passou, ou do jogador fora de série que ele é (e ele é!), só consigo pensar no que ele ganha, no que ele sonega, e no que ele - pra usar uma palavra coachista - 'entrega'. E aí, sinto muito, a distância entre o valor de uso e o valor de troca gera muito, mas muito lucro! Nenhuma condescendência com um homem infantilizado, mimado, midiático, que em campo xinga adversários, juízes e companheiros, pra depois se postar estrategicamente diante das câmeras do mundo pra chorar (no segundo jogo, contra a Costa Rica!). Sinto muito, não consigo ver quem ganha 1,8 milhão por mês pra jogar bola (ou seja, pra algo que não produz quase nenhum valor pra sociedade) como um 'ser humano como qualquer outro'. Os demais jogadores não são equipe, são 'parças'. Todos eles estão ali a serviço dele, Neymar. Jogam pra ele, apontam pra ele, o defendem incondicionalmente. A seleção de 70 tinha Pelé em campo e o time NÃO jogava para ele. Aliás, era bem o contrário. Ele é que jogava por todos, às vezes. Na verdade, é o que acontece hoje com o 'bola de ouro' (da qual o 'menino Ney' está cada vez mais longe) atual, Cristiano Ronaldo. Ele joga (ou tenta) por toda a equipe. 

Mas essa condição do Neymar não é de hoje. Lembram do jogo contra a Alemanha (sim, aquele) em 2014, quando o time entrou em campo choroso e circunspecto, segurando a camisa do Neymar (lesionado), dizendo que iriam jogar para ele? Nunca vi isso acontecer com nenhum jogador machucado... Pequenos detalhes, como o gol do Thiago Silva, agora contra a Sérvia, confirmam o que estou falando. Neymar bate o escanteio. Thiago sai atrás da bola e a encontra no primeiro pau, mete a cabeça, golaço. Mas logo as câmeras focam em Neymar, que está no canto, aos gritos, dizendo "Vem! Vem!". E todos vão abraçar... Neymar! E o locutor-títere da Globo louva o passe magistral de... Neymar! Outra: ao fim do jogo contra o México, Neymar é carregado nos ombros por Paulinho, embora o grande nome do jogo tenha sido William. 

O futebol hoje NÃO é mais um esporte. É um NEGÓCIO PLANETÁRIO, uma atividade hiperespetacularizada, megamilionária. Se eu fosse ainda ligado em estudos de midiologia, poderia fazer longas análises sobre a cobertura de uma Copa do Mundo. Paul Virilio teria orgasmos múltiplos se resolvesse trabalhar nisso hoje. Até um alemão frio e sofisticado como Kittler os teria. A multiplicidade de câmeras, de tempos e velocidades (câmeras hiperlentas, supercloses, 360%), as edições e os grandes esquemas tecnológicos pirotécnicos 3D criados para deslindar as táticas e, sobretudo, o Espetáculo pelo Espetáculo, o Espetáculo que dispensa o conteúdo e o fato, quando a matéria fala de si e para si, quando o 'repórter' não descreve nada além de suas sensações ao descrever, que é isso o que no fundo lhe importa, quando em toda reportagem há de ter uma gota de arte, uma crônica, uma gag... E tudo, claro, alagado por anunciantes, produtos, reclames, lobbies, enfim, negócios e negócios e mais negócios. O povo passivo compra (essa é a palavra) todo esse simulacro - ou melhor, essa simulação - como real. Distraídos. 

Adendo sobre o 'falso 9': não sei se por causa do quadro das matrioskas (que derrota isso, gente!) ou de outros negócios ainda mais escusos, não consegui entender até agora a permanência de Gabriel Jesus nesse time e fazendo essa função. Vi e ouvi comentadores da TV e de facebook se derramando em elogios a ele e ao Tite pela função de 'abrir espaços' e 'jogar sem a bola'. "É fundamental para o esquema do Tite", diziam. Tomá no cu, digo eu em alto e bom som. Isso não é falso 9! Jogar sem pegar na bola, sem chutar a gol, sem fazer um gol, só marcando um pouquinho, na boa, até EU faço essa função, não é preciso nem jogar futebol pra isso! Só vou dizer um nome de um verdadeiro (?) falso 9: TOSTÃO! Abriu espaços, marcou o ataque, mas fazia jogadas maravilhosas, deixava os companheiros na cara do gol, driblava e fazia gols! Ponto final. 

Adendo sobre a expectativa da seleção brasileira: jogam 32 seleções nacionais numa Copa do Mundo, todas elas classificadas em penosos (os da Europa, então!) torneios continentais. Todas chegam para disputar o torneio, sabendo que apenas uma será campeã. Todas (quase todas) chegam sem nada e vão conquistando passo a passo, jogo a jogo a sua condição de disputar a final. E se alegram a cada vitória. Todas (quase todas) chegam pra disputar a Taça, conscientes que têm 1/32 de chances de obtê-la. Mas o Brasil não. A seleção brasileira parece chegar à Copa com a taça já ganha, e se ocupa 'apenas' de não deixar que nada se interponha no caminho de sua merecidíssima vitória já desde sempre reservada. Se algo acontece (como em 2006, 2010, 2014, e agora em 2018), trate-se de 'entender o por quê', de se identificar e punir os culpados. Nunca perdemos para um adversário mais forte ou mais capaz, nunca é (mesmo que se diga, a título de desculpinha) 'coisa do jogo', sempre perdemos para algo extra jogo (um juiz, agora o VAR, o 'azar' ou o 'imponderável') ou para nós mesmos (um jogador que não rendeu o que podia, um goleiro que falhou, etc). Isso tem que mudar um dia. É uma Copa, mas é só uma competição esportiva, em que todos têm quase as mesmas chances de vencer. Vencemos de enfiada (quando éramos DE FATO os melhores do mundo sobrando) em 58, 62 e 70, com o interregno trágico de 66. Depois disso, daí pra frente, somos bons, mas somos tão bons quanto os demais. Oscilamos, como todos. Estamos no jogo, nossa CBF é corrupta, nossos técnicos querem ser superstars, nossas estrelas são, bem, 'estrelas'. 

Último adendo (mesmo), sobre a derrota. Lembro de uma entrevista com o Loco Abreu, quando ele jogava no Botafogo. Saída do jogo. Loco Abreu perdeu um pênalti, e com isso o campeonato carioca daquele ano (se bem me lembro): [Repórter] - Loco, você deve estar arrasado, não é? [Loco Abreu] - Não. Arrasado eu fiquei mês passado, quando minha avó morreu. Eu nunca mais vou vê-la de novo. Mas hoje só perdi um pênalti, só perdemos um campeonato. Ano que vem tem outro. 

[Pano rápido] 
Caco Xavier

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Novo livro do Dandão


"São múltiplas as sacadas e metáforas que se desenrolam por entre as letras reunidas por Francisco Dandão, fazendo milhares de assuntos se misturarem entre si: política, história, geografia, filosofia, economia e, claro, o futebol, além de outros do viver cotidiano do brasileiro que marcam presença nesta obra. Os assuntos se misturam e fazem eclodir histórias fantásticas, mergulhando o leitor nas maravilhas das narrativas, por onde perpassam lembranças e sonhos a cada olhar e o brotar de sorrisos de um tempo passado e presente.". (Trecho do prefácio de Manoel Façanha).

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terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Copinha 2018

Copinha 2018

Francisco Dandão

         Morei dois anos em São Paulo, na época em que eu cursava um doutorado em Comunicação e Semiótica na Pontifícia Universidade Católica. Morei dois anos, mas jamais passei um Réveillon na cidade. Todo mês de dezembro eu ia para Fortaleza, virar o ciclo solar pertinho do mar.

Por não permanecer na capital paulista nos finais de ano, eu também nunca pude apreciar in loco os jogos da Copa São Paulo de Futebol Junior, a denominada Copinha. Sempre assisti aos jogos desse torneio à distância, milhares de quilômetros longe, pelo olho eternamente mágico da televisão.

         Nesse recente final de ano, porém, para confirmar a minha compulsão de estar sempre indo e voltando de um lugar para o outro, nada mais lógico, agora que eu moro em Fortaleza, do que a minha decisão de passar a referida virada do ciclo solar na desvairadamente linda capital de todas as esquinas.

         Dessa forma, então, eis que eu botei o pé num avião e me mandei para o delirante concreto anfitrião de todas as tribos, credos e cores. Sim, cores mesmo. É que entre o chumbo do céu e o negro do asfalto saltam por entre ladeiras e planícies paredes, brincos e tatoos de todos os matizes e espécies.

         E, assim, eu era um daqueles dois milhões de criaturas que dançaram (força de expressão, que eu no máximo ensaio um movimento de cintura, sem tirar os pés do lugar) à meia-noite do dia 31 de dezembro, no embalo da voz sensual da baiana Claudinha Leite, no Réveillon da Avenida Paulista.

         A festa na avenida foi a primeira parte da minha missão. Uma vez cumprida, tratei de traçar o meu roteiro para saber como é que eu devia fazer para chegar em São Bernardo, cidade onde o time sub-20 do Rio Branco jogaria a fase de grupos da Copinha. Sim, lá onde moram as barbas do Lula.

         O primeiro jogo do Rio Branco, contra o time da cidade, estava marcado para às 14 horas. Calculei o tempo que eu levaria para chegar ao local e exatamente às 11h30m entrei no metrô que me levaria à estação Jabaquara. A etapa seguinte seria percorrida num ônibus elétrico (trolebus).

         Cheguei ao estádio Baetão bem na hora do hino, quase duas horas e meia depois de entrar no metrô em São Paulo. E a minha primeira impressão não foi da melhores. É que a diferença física entre os atletas dos dois times era enorme. O Rio Branco parecia um time mirim em comparação com eles.

         Não gostei daquilo. Mas ainda me sobreveio a esperança de que nem sempre o maior é o melhor. A esperança se esvaiu tão logo a bola rolou. O anfitrião, mesmo sem jogar muita bola, se impôs na força e venceu fácil. Pra completar, eu ainda levei chuva no lombo. Só valeu pela festa de Reveillon!


- Janeiro de 2018 -